A Sagrada Comunhão (Parte 1)

outubro 25 17:24 2016 Imprimir Este artigo

“Quem come desse pão ou bebe do cálice do Senhor indignamente, será réu do Corpo e do Sangue do Senhor” (1Cor 11,27).

Os santos dizem que vale muito mais uma Comunhão do que um êxtase, um arrebatamento, uma visão. A Santa Comunhão transporta o Paraíso inteiro para o nosso pobre coração. Ali o Céu se faz presente; “onde está o Rei está toda a Corte”, dizia Santa Tereza de Jesus. Quando Jesus é recebido em uma alma, toda a Igreja exulta de alegria, a dos Céus, a do Purgatório e a da Terra. A Santa Comunhão deve ser recebida em “estado de graça”. Por isso, se tivermos cometido um pecado mortal, ainda que já estivermos arrependidos e sintamos um grande desejo de comungar, é necessário e indispensável que nos confessemos com o sacerdote antes de Comungar. É bom se lembrar do que São Paulo disse aos coríntios: “Quem come desse pão ou bebe do cálice do Senhor indignamente, será réu do Corpo e do Sangue do Senhor” (1Cor 11,27).

sagrada-comunhaoQuem quer receber a Cristo na Comunhão eucarística não pode ter, em consciência, algum pecado mortal. A Confissão comunitária só é válida em casos muito especiais; e, assim mesmo, o penitente fica obrigado depois a se confessar com um sacerdote tão logo seja possível. (cf. CIC §1483).

Mas o que é o pecado mortal?

“É pecado mortal todo pecado que tem como objeto uma matéria grave, e que é cometido com plena consciência e deliberadamente” (CIC §1859). Isto é, uma infração grave à lei de Deus, cometida de maneira consciente e livre.

A matéria grave, ensina o Catecismo, é precisada pelos Dez Mandamentos, segundo a resposta de Jesus ao jovem rico: “Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes ninguém, honra teu pai e tua mãe”(Mc 10,19), (CIC §1858).

Um modo delicado de preparar-nos para a sagrada Comunhão é invocando a Virgem Imaculada e entregando-nos a ela para que nos prepare para receber a Jesus com a humildade, com a sua pureza, com o seu amor, e que venha ela mesma recebê-lo em nós. Esta piedosa prática foi recomendada por muitos Santos, especialmente por S. Luiz Grignon de Montfort, por S. Pedro Julião Eymard, por S. Afonso de Ligório, S. Maximiliano M. Kolbe e muitos outros: “A melhor preparação para Santa Comunhão é a que se faz com Maria”.

São Cirilo de Jerusalém, que pregava no século V na Basílica do Santo Sepulcro de Jesus, nos dá belas orientações sobre a Comunhão.Aos que recebem a Hóstia nas mãos, ele dizia:

“Quando te aproximares para receber o Senhor não o faças com os braços soltos e com os dedos abertos, mas faça da tua mão esquerda o Trono para a sua mão direita, pois nesta receberás o Rei, e na alma recebes o Corpo de Cristo dizendo Amém. Então, com todo cuidado, santifica teus olhos pelo Santo Corpo e em seguida toma-O e cuida para que nada se perca. Com efeito, qualquer migalha que perderes seria como que perder um dos teus próprios membros.  Diga-me: se colocassem ouro em pó na tua mão, você não guardaria com toda atenção? Não terás, portanto, ainda maior cuidado com o objeto ainda mais precioso que o ouro e que qualquer pedra preciosa, para que não se perca nenhuma migalha? Depois, tendo comungado o Corpo de Cristo, aproxima-te do Cálice do Seu Sangue, inclina-te num gesto de Adoração e diga Amém. Santifica-te assim tomando também o Sangue de Cristo. E esperando a oração, dá Graças a Deus, que te considerou digno de tão grande Mistério…”

Ninguém é digno de receber a Eucaristia, mas é o amor de Jesus que quer que o recebamos. O amor de Jesus por nós, exige que ele se dê a nós.

Assim, o importante são as “disposições convenientes” para Comungar, que segundo Santo Afonso precisamos ter para fazer uma boa Comunhão com Jesus:

1. Estar em estado de graça;
2. Querer ser santo;
3. Desejar crescer no amor a Jesus;
4. Fazer meditação frequente;
5. Mortificar os sentidos e as paixões;
6. Fazer a ação de graças após a comunhão, e querer ser de Deus. Àqueles que não querem comungar, por se acharem indignos, Santo Afonso de Ligório diz: “Menos digno te tornarás, pois serás mais fraco e cairás mais”. E ensinava que “as faltas, quando não plenamente voluntárias, não impedem a Comunhão”.

O Sacramento da Eucaristia no Código de Direito Canônico

O cânon 920 do Código de Direito Canônico estabelece que todo fiel católico, após a Primeira Comunhão, “tem o dever decapa_comungar comungar ao menos uma vez por ano. Este preceito deve ser cumprido no tempo pascal a não ser que, por justa causa, se cumpra em outra época dentro do mesmo ano”. Por “tempo pascal” na Igreja universal entende-se o período que vai de quinta-feira santa até o Domingo de Pentecostes.

Diz o cânon 916 do novo Código: “Quem está consciente de pecado grave, não celebre a Missa nem comungue o Corpo do Senhor sem fazer antes a Confissão sacramental a não ser que exista causa grave e não haja oportunidade para se confessar; neste caso, porém, lembre-se de que é obrigado a fazer um ato de contrição perfeita, que inclui o propósito de se confessar quanto antes”. Santo Agostinho disse: “Não abramos de par em par a boca, mas o coração. Não nos alimenta o que vemos, mas o que cremos”.

Aquele que ama anseia estar junto da pessoa amada; e o seu maior sofrimento é não ser correspondido no seu amor. Para comprovar isto, basta ver como fica triste uma jovem, quando o namorado que tanto ama, lhe abandona. A dor e a angústia é ainda maior quando ela é trocada por outra. A dor mais forte é a  “dor do amor”. A pior dor é a do amor não correspondido. Conheci uma moça que, ao saber que o seu namoro tinha terminado, não queria mais nada, e nada podia consolá-la; não queria mais comer, dormir, estudar… nada. Era a dor do amor. Queria “morrer…”

Jesus mostrou e provou o seu amor por nós de inúmeras maneiras: assumiu a nossa natureza, “vestiu a nossa carne”, fez-se obediente até a morte, morte de cruz, para nos salvar da morte eterna, e ficou conosco para sempre na Eucaristia.

Neste Sacramento do seu próprio Corpo, o Senhor nos dá a revelação máxima do seu amor. Fez o milagre da Eucaristia para estar junto de nós, individualmente, com cada um, de modo “particular”, e inteiramente. Fez-se pão, “prisioneiro dos nossos sacrários”, para estar sempre conosco, a cada dia, e todos os dias.

Ele se entregou totalmente a nós no Pão. Ele que é Onipotente, se fez fraco no pão; Ele que é o Soberano, se fez pobre; Ele que é o Infinito de Tudo, se fez limitado num pedacinho de pão. É o milagre do Amor.

Na Comunhão recebemos Jesus, substancialmente, e Ele vem a nós para nos transformar Nele e nos comunicar a Sua Santidade e, depois, sua Felicidade e Glória eternas.

Pela santa Comunhão, Ele como que nasce, cresce, vive em nós; por isso, quer ser recebido frequentemente por cada um dos cristãos.

Os Santos são unânimes em dizer que a santa Comunhão com Jesus é o meio de onde se pode tirar o maior proveito para a própria santificação. Mas para isso é preciso que Jesus seja desejado e amado pelo coração de quem o vai receber. Santo Agostinho disse que “Ele se esconde porque quer ser procurado e desejado”.

Em primeiro lugar, cabe-nos viver de tal forma que possamos Comungar com freqüência, e se possível diariamente. Depois, devemos recebê-lo com confiança. Ele se velou para não nos amedrontar e permitir que fitemos nele os olhos e dele nos aproximemos sem receio.

Se a nossa indignidade nos assusta, devemos saber que nem mesmo o mais puro Querubim é digno de recebê-lo.  Mas é Ele que nos atrai e nos chama: “Vinde a Mim…”

Se a nossa piedade é pequena para recebê-lo, e o nosso amor é fraco, isto, ao invés de nos afastar da Comunhão, deve nos aproximar dela, para tomarmos o Remédio contra esses males. Quanto mais fracos e mais doentes somos, tanto mais necessitamos do Médico e do Remédio. Ele é o Pão da vida, dos fracos e dos fortes também. São Francisco de Sales dizia que dois tipos de pessoas precisam Comungar sempre: os imperfeitos para se tornarem perfeitos e os perfeitos para assim continuarem.

Os pecados normais leves (veniais), as negligências de cada dia, a falta de oração, as pequenas vaidades, o amor-próprio, a preguiça em certos afazeres, etc, tudo isso é perdoado por Deus no “Ato Penitencial” da Santa Missa, ou mesmo ao nos benzermos com a água benta na entrada da igreja, com um ato de contrição. É  importante estar disposto a perdoar a todos os que nos ofenderam; pois, sem isto Deus não pode nos perdoar.

Não se pode abandonar a Comunhão pelos pecados pequenos e por escrúpulos, porque ela é fonte de nossa salvação. É claro que o demônio vai tentar nos afastar da mesa eucarística dizendo-nos, sem cessar, que não somos dignos de Comungar.

Além do mais, devemos também ir à Comunhão mais por Jesus do que por nós mesmos, a fim de consolá-lo em seu abandono; e daremos a Jesus o gozo de fazer o bem e de espalhar suas graças. Vindo a nós Jesus continua, também, dando glória ao Pai. No seu estado glorioso Ele não pode mais obter méritos, mas vindo ao homem, pela Comunhão, Ele pode continuar a dar honra e glória ao Pai. Unindo-se a nós pela Comunhão damos a Jesus membros e faculdades sensíveis e vivas, e Jesus, assim, continua a viver por nós. Desta forma, somos nós que trabalhamos, mas pela graça de Jesus; somos nós que temos os méritos, mas é Jesus quem recebe toda a glória.

Desta forma Ele continua a amar e adorar o Pai, sofrer e viver novamente em seus membros.

Pelo exposto acima podemos dizer que a Comunhão é como uma nova e permanente Encarnação de Jesus. A nossa Comunhão é como que para Jesus uma outra vida na terra.

Pela Comunhão eucarística, é edificada a unidade da Igreja, corpo de Cristo. S. Paulo disse aos coríntios: “O pão que partimos não é a comunhão do Corpo de Cristo? Uma vez que há um só pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1Cor10,16-17). S. João Crisóstomo comenta: “Com efeito, o que é o pão? É o corpo de Cristo. E em que se transformam aqueles que o recebem? No corpo de Cristo; não muitos corpos, mas um só corpo. De fato, tal como o pão é um só apesar de constituído por muitos grãos, e estes, embora não se vejam, todavia estão no pão, de tal modo que a sua diferença desapareceu devido à sua perfeita e recíproca fusão, assim também nós estamos unidos reciprocamente entre nós e, todos juntos, com Cristo”. (Homilias sobre a I Carta aos Coríntios, 24, 2)

Preparação para a Comunhão

“Dilatai vossos desejos e Eu os saciarei” (Sl 80,11).
eucaristia“É obra de suma importância, pois não é ao homem que preparais uma morada, mas a Deus”, disse um santo.Deus preparou uma digna morada para Jesus no seio da Virgem Maria, preservando-a de toda mancha do pecado original. Ela é de fato Imaculada porque o Filho de Deus não poderia ser concebido em uma morada que não lhe fosse digna. E Maria esperou com amor de Mãe.

Nós também precisamos preparar para Jesus uma digna morada em nossa alma, comungando bem, com as disposições necessárias: estado de graça, desejo de santidade e de servir a Deus com amor puro e reta intenção.

Devemos preparar o corpo e a alma para a Comunhão. O corpo é preparado com o jejum de uma hora de antecedência e com uma postura digna e honrada.  As mulheres precisam se vestir de maneira digna, de modo que não provoquem a sensualidade nos homens. Quando se recebe o Rei é preciso estar bem vestido. Quando vamos a uma festa nos preparamos bem; e para a Missa? Nenhuma negligência exterior deve ser tolerada, pois vamos receber o Rei do Céu. A alma deve ser preparada com a isenção de todo pecado mortal, recolhimento e fervor.

É preciso aproximar-se da Comunhão com “desejo” na alma, pois Jesus está dizendo a nós: Vinde a Mim.  Venho dar-vos a vida e a santidade, a força e a graça. Vinde confiante: Dai-me o vosso coração.

Os próprios Anjos invejam a nossa felicidade e o Céu nos contempla cheios de admiração, dizem os Santos.

Para comer é preciso ter fome. Para Comungar bem é preciso ter “fome de Jesus”, fome da Comunhão. Quanto maior for esta fome, tanto mais proveitosa será a Comunhão. É preciso pedir esta fome a Deus, pois é Ele quem no-la dá.  É uma ação da graça em nós. O homem é movido pelo desejo, pela motivação; então é preciso suplicar a Deus esta graça. Quanto mais comungamos, mais fome temos de Deus; quanto menos comungamos, menos temos esse desejo, pois é o próprio Jesus que nos  atrai a Ele.

Essa fome de Deus nem sempre será agradável e sensível, mas pode existir sempre. O doente não tem desejo de comer, mas sabe que precisa comer para se recuperar. Assim seremos nós muitas vezes, diante da Comunhão; vamos a ela com a fome do doente, que apenas sabe que dela precisa. Nessas ocasiões basta apresentar ao Senhor, com sinceridade, a nossa miséria e fraqueza e rogar-lhe que venha socorrer-nos em nossa fraqueza.  O Médico divino tem prazer em curar as nossas feridas quando as mostramos a Ele. Em sua vida terrena Ele tinha muita alegria em acolher os pobres e doentes, e amar a todos. Ele continua o mesmo.

Não tenhais medo!

 

Sobre Prof. Felipe Aquino

O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.

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