A vida de São João da Cruz

junho 16 01:22 2016 Imprimir Este artigo

I. Uma breve biografia

1. Infância. — Beatificado em 1675 por Clemente X, canonizado em dezembro de 1726 por Bento XIII, declarado Doutor da Igreja em 1926 por Pio XI, — eis, em seus três principais e mais solenes marcos, o itinerário que o maior dos místicos espanhóis, São João da Cruz, teve de percorrer até chegar aos nossos dias como feliz e grato modelo de uma alma que, durante uma curta e frutuosa vida, a nada mais se entregou senão à tarefa de unir-se intimamente ao Senhor. Nascido em 1542,João de Yepes cresceu numa situação familiar bastante sofrida. Seu pai, Gonçalo de Yepes, um nobre e abastado toledano, apaixonara-se por uma jovem conterrânea, Catarina Álvares, que, embora de singular beleza e piedade, era contudo de origem modesta. Orgulhosos de sua linhagem, os Yepes não poderiam aceitar que um dos seus desposasse uma moça sem nome e cujo ofício, o de mera tecelã, em algo desmerecesse a prosápia e os negócios de que tanto se jactavam. Gonçalo, no entanto, preferiu perder os benefícios e comodidades de sua ascendência a renunciar à mão de Catarina.

Deserdado pela família e reduzido à condição de proletário, Gonçalo teve de aprender da esposa o manejo dos teares. Fixado na comunidade de Fontiveros, situada entre Ávila e Salamanca, o jovem casal teve ali três filhos: Francisco, Luís e João. O pai, entretanto, morreria pouco depois, deixando para trás viúva e três rapazinhos. Premida pela pobreza e a total falta de recursos, Catarina não viu outro remédio para a indigência em que se encontrava senão viajar a pé até à cidade de Torrijos, cujo arcediago, cunhado seu, talvez pudesse acolher os pobres sobrinhos. Como porém os Yepes mais uma vez lhe fechassem as portas, Catarina teve de virar-se como pôde. A carestia, com efeito, lhe impunha a ela e aos órfãos o inconveniente de ir buscar trabalho noutras localidades para além do burgo natal—Arévalo, Medina del Campo etc. Tamanha era a dificuldade de prover às mais básicas necessidades, que a mísera família de João sofreria mais uma dura perda: poucos anos após morte do pai, Luís morria de inanição.

A má nutrição a que por longo tempo foi submetido decerto contribuiu para que João tomasse as feições franzinas, magras, austeras, e a baixa estatura com que é comumente retratado. A dureza da infância, se por um lado lhe debilitou o corpo, por outro também lhe vacinou o espírito contra “todo orgulho de casta” [1], dando-lhe a conhecer não já em teoria, senão na experiência viva e concreta do desprezo e da humilhação, “a que grau de crueldade anti-cristã pode levar a soberba, quando reina em um coração que se julga cristão.” [2] Aquele organismo mirrado e diminuto, animado porém por uma gigantesca e robusta alma, pôde entrever desde cedo, com a compunção dos humildes, “a vida faustosa dos nobres e ricos a contrastar com a própria penúria” [3]. A sua vasta experiência numa variedade quase espantosa de ofícios (aos quais parece nunca ter-se adaptado), aprendidos no Colégio de la Doctrina, também serviu para forjar-lhe um profundoespírito de serviço e desprezo de si. A este respeito, escreve Crisógono de Jesus Sacramentado que, elogiado por haver presidido um certo convento, o santo, com incrível simplicidade, rapidamente retrucou: “Ali mesmo fui também cozinheiro”!

2. Vocação. — Era antes ao serviço ao altar que o Senhor o chamava. O fracasso como carpinteiro, marceneiro, entalhador, pintor e alfaiate seria abundantemente compensado pela dedicação e piedade com que ornava a função de acólito na igreja das monjas agostinianas, em Medina. Apaixonado pela sacristia, o pequenino Yepes se entregava com grande fervor e atenção às coisas de Deus. Vendo-o disposto a abraçar o sacerdócio, d. Alonso Álvares de Toledo, generoso fidalgo, chegou a oferecer-lhe a possibilidade de se tornar capelão do Hospital de las Bubas, ao qual, aliás, vinha há tempos servindo como enfermeiro de sifilíticos. A perspectiva da boa prebenda que o sacerdócio secular lhe poderia fornecer, contudo, não foi suficiente para dobrar-lhe o temperamento inclinado à solidão e ao silêncio que apenas num mosteiro poderia encontrar. Por isso, sem dizê-lo a ninguém, apresentou-se em 1563 ao convento do Carmo e, tomando ali o hábito, adotou o nome de João de São Matias.

Emitidos os votos solenes logo no ano seguinte, o jovem frei foi estudar Filosofia e Teologia a Salamanca, um dos maiores centros de estudo de toda a Europa de então. Unindo ao ideal ascético-místico do Carmelo os dotes de sua aguda inteligência, João pôde desenvolver em meio à atmosfera universitária salmantina aquela unidade orgânica entre vida e pensamento que os doutores medievais souberam pôr em prática. O seu pensamento, ordenado e coerente, além de enraizado na experiência viva de uma alma de verdadeira oração, transpareceria na beleza de seus detalhes e na perfeita unidade de sua estrutura em obras como a Subida [4], escrita com a perfeição a que o própria livro nos pretende conduzir. “Nem por um minuto sequer”, podemos ter certeza, “deixou-se seduzir pelos prestígios do intelectualismo.” [5] Foi ainda durante estes anos de estudante que começou a sentir as oposições que, tempos mais tarde, levá-lo-iam ao cárcere. Se o vissem ao longe—relata o colega Alonso de Villalba—, já os religiosos de costumes mais afrouxados “interrompiam suas confabulações e murmuravam: ‘Vamos embora, antes que chegue aquele diabo!'” [6]

Recebeu, enfim, as sagradas ordens em 1567. Devia orçar à época por volta dos vinte e cinco anos. Sua primeira missa, cantada em Medina del Campo, foi decerto um momento único, em que o seu vigor penitente viu-se de cara com um profundo horror do pecado. Podemos imaginá-lo, à hora da consagração, tendo em mãos as sagradas espécies, a orar com a intensidade de um “filho de Elias, suplicando jamais incidisse em falta grava; suportasse nesta vida todas as penas devidas aos pecados que na sua fragilidade seria capaz de cometer, contanto não se inquinasse.” [7] Sentia contudo faltar-lhe algo; a Ordem a que se afiliara, de resto, parecia incapaz de oferecer orecolhimento e a penitência que Deus faz desejar os que d’Ele se enamoram. Nem mesmo a obediência à primitiva (e mais rígida) regra de S. Alberto de Jerusalém, já em desuso quando de seu ingresso no Carmelo, pôde aquietá-lo. Decidiu, portanto, tornar-se cartuxo. “Só naquele páramo”, pensava, “sua alma […] encontraria a Deus” [8].

3. Reformador. — Pudesse a vontade dos homens resistir aos decretos da Providência, teria a Ordem carmelitana perdido uma de suas mais insignes almas. Nosso Senhor, todavia, foi servido de, ainda em 1567, trazer a Medina um dos maiores vultos femininos que a Espanha jamais conhecera: Teresa de Ahumada y Cepeda. Inquieta, assim como o nosso João, com a “mediocridade espiritual” a que o Carmelo se vinha apequenando, madre Teresa estava determinada a levar a cabo o projeto de, por meio duma ampla reforma, reconduzir as irmãs carmelitas aos altos ideias que originalmente animaram a Ordem. Os primeiros passos já haviam sido dados em agosto de 1562, no mosteiro de São José, em Ávila. Em Medina, com efeito, chega-lhe aos ouvidos a fama de penitente e contemplativo que rodeava o recém-ordenado frei João. Prendada com as grandes coisas que ouvira a seu respeito, Teresa pôde encontrar-se com ele pouco depois. “Louvei a Nosso Senhor”, assim resume suas impressões da conversa, “e, falando-lhe, muito me contentei.” [9]

Teresa conseguiu-o convencer a não ir para a Cartuxa, mas antes a buscar a maior perfeição que anelava na própria Ordem. “Fiz-lhe ver que, assim”, escreve, “serviria melhor ao Senhor.” [10] Comprometido pois a realizar a obra de reforma masculina, João deu-lhe palavra, sob condição de não haver muita demora. A alegria de Teresa por ter encontrado o auxílio de que precisava traduz-se no bom humor com que, alvoroçada, comunicou seu achado às irmãs: “Ajudem-me, filhas, a dar graças a Nosso Senhor, que já temos frade e meio para começar a reforma dos religiosos”! João era, de fato, um “toquinho de homem” [11], um “meio frade”, se comparado com frei Antônio de Heredia, seu novo e imponente cooperador. Obtida a licença dos provinciais, João foi enviado, em setembro de 1568, a Duruelo, onde um velho e pobre casebre aguardava por seus cuidados [12]. Ali se reuniu, em novembro do mesmo ano, a nova família de carmelitas descalços. A partir de então, o franzino frade chamar-se-ia João da Cruz.

Santa Teresa deixou-nos em suas Fundações um eloquente testemunho da admiração de que foi tomada ao divisar seja a simplicidade daquela “nova” casa, seja a solidão da arraial em que os descalçados, escondidos do mundo, poderiam buscar a Deus:

Ao entrar na igreja, fiquei espantada ao ver o espírito que o Senhor ali pusera. E não só me espantei, mas também dois mercadores amigos meus, que me acompanhavam desde Medina: eles não paravam de chorar. Havia tantas cruzes!Tantas caveiras! […] era preciso que as pessoas se abaixassem muito para entrar e para ouvir missa. Nos cantos laterais da igreja, havia duas ermidas onde só se podia ficar deitado ou sentado; estavam cheias de feno, porque o lugar era muito frio e o telhado quase lhes tocava a cabeça, contendo dois postigos que davam para o altar e duas pedras por cabeceira, ficando ali, ainda, as cruzes e as caveiras [13].

Duruelo foi somente o primeiro “germe da solidão” [14]. Com efeito, os conventos de vida reformada multiplicar-se-iam dali para frente. A ascese da nova observância, o amor com que os carmelitas (com os pés a avermelhar de sangue a brancura da neve) se doavam ao Senhor, o fervor com que, cruzando léguas, iam anunciar ao povo o Evangelho de Cristo, — tudo isto atraía “muitos homens de primeira plana” [15]. Essa pregação por meio do exemplo fez a reforma da Ordem difundir-se “como uma mancha de óleo” [16]. Teresa fora enfim eleita priora do carmelo a Encarnação, em Ávila, e João, de burel tosco e capa branca, convidado para ali ser confessor. Logo cedo, no entanto, descobriria ele “uma das mais secretas leis da Providência: a de que nada de duradouro se realiza neste mundo a não ser pela resistência e pelo combate.” [17]

4. Cárcere. — Mais dia, menos dia, a dura disciplina a que se vinham submetendo os descalços acabaria por contrastar com a moleza de certos religiosos. À boa lã de uns contrapunha-se o saial pobremente cosido de outros; à brandura preguiçosa, o esforço diligente; ao calçado confortável, o pé rachado pela terra. Mesmo entre os seus encontraria oposição [18]. Deus talvez assim o convidasse a consumar a máxima de toda ascese por ele vivida: deve-se passar pelodesprendimento total para chegar-se à união divina [19].

Como quer que seja, alguns carmelitas calçados, a fim de o perder de vista, decidiram sequestrar João em plena noite. Sem que ninguém desconfiasse, levaram-no para um convento em Toledo, onde o meteram agrilhoado numa cela lúgubre, apertada e sem janelas. Ali ficou por pouco mais ou menos nove meses. Passando os dias a pão e água, toda semana recebia no refeitório, à vista de todos, um caprichado açoite, sempre salgado “com injúrias e troças.” [20] As seduções e ameaças com que ali foi tentado só poderiam fazer brotar numa alma cândida e inocente como a dele as mais belas páginas não só da literatura mística, mas também de toda a poética hispânica. O Cântico Espiritual, por exemplo, nos apresentas os suspiros apaixonados duma alma em colóquio com seu divino Esposo:

Onde é que tu, Amado,
Te escondeste deixando-me em gemido?
Fugiste como o veado,
Hevendo-me ferido;
Clamando eu fui por ti; tinhas partido!

[…]

Mostra tua presença
Mate-me a tua vista e formosura;
Olha que esta doença
De amor, já não se cura,
Senão com a presença e co’a figura [21].

Conseguiu, afinal, fugir da prisão com a ajuda do carcereiro. Algumas irmãs descalças encontram-no de todo debilitado: o hábito, que há quase um ano não via banho, e a magreza da carne deviam-lhe dar um aspecto mais de morto que de vivo. Estava reduzindo a um nada. Aquelas mui bondosas carmelitas arranjaram-lhe pousada por dois meses bem ao lado do convento de que há pouco fugira. Ficou em Toledo até outubro de 1578 e de lá partiu para Almodôvar. Era a primeira vez que via o mar. Recuperado dos maus-tratos, João pôde dar continuidade à reforma e se dedicar a seus escritos. Feito prior do carmelo de Granada, ele teria então a tranquilidade da cela para comentar suas poesias e redigir suas mais importantes obras: a Subida, a Noite Escura e a Chama de Amor [22].

5. Matinas no Céu. — Não cessaram, porém, as perseguições e João teria ainda de enfrentar graves dificuldades. Em outubro de 1582, festa de São Francisco de Assis, viu-se privado de seu maior apoio. Morria Teresa d’Ávila, deixando uma obra consolidada em dezessete casas femininas e quinze masculinas. O desafio de continuar sozinho o grande projeto de sua mãe espiritual fá-lo-ia deparar com obstáculos “tão numerosos e tão terríveis, que não podemos deixar de ver neles a mão da Providência, carinhosamente empenhada em dar ao santo, pelo sofrimento, os últimos arremates.” [23] Receberia a coroa da humildade em junho de 1591, quando o Capítulo de Madrid o despojou de todas as dignidades, deixando-o, pois, sem cargo nenhum na Ordem. Difamado por confrades e fustigado até pelos superiores, João é mandado à força para o distante convento de La Peñuela. Fica ali, ao que parece, por volta de dois meses. Ia partir em missão para o México, mas acabou por cair gravemente enfermo devido a uma inflamação na perna. A febre agarrou-se-lhe ao corpo sem mais deixá-lo.

Tomado pelos abcessos de uma presumível erisipela, teve enfim de ser transportado para Úbeda, “uma antiga praça-forte moura flagelada pelos ventos dos planaltos.” [24] Sua fama de santo, por essa época, já o precedia; por isso, foi recebido com grande carinho e desvelo pelos irmãos da última comunidade de que faria parte. Estes últimos dias, como ele mesmo pedira ao Senhor, foram marcados por intensas dores e sofrimentos. Eram as cruzes derradeiras que Cristo lhe havia preparado.

Num sábado, dia de Nossa Senhora, pressentiu que chegara ao fim: à meia-noite do dia 14 de dezembro de 1591, assim lho revelara Deus, iria ele adormecer para a morte desta vida e acordar para a glória da futura. Passou o dia todo perguntando a hora aos frades. Chegada a noite, quiseram-lhe fazer a oração dos agonizantes; frei João, porém, quis lhe recitassem o Cântico dos Cânticos, o poema do amor de Deus pelos justos, pelas almas, pela Igreja. Aos badalos da meia-noite, expirou na paz do Senhor, já sem dar pelas úlceras que lhe crivavam o corpo. “Irei cantar Matinas no Céu” foram as últimas palavras desta grande alma, cujo consolo esteve na dor, cuja alegria esteve em sofrer o que falta às tribulações de Cristo (cf. Col 1, 24), cujo coração sempre esteve certo de que “os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com glória futura que nos deve ser manifestada” (Rm 8, 18).

II. Um resumo da doutrina

6. Doutor do tudo e do nada. — Deus é a plenitude do ser: Ele Se basta a Si mesmo e de nada precisa que esteja fora de Si para ser o que é. Por isso, podemos dizer com maior propriedade que Ele é o próprio Ser subsistente (ipsum esse subsistens), cuja essência consiste em ser por Si mesmo, ao passo que as criaturas só existem porque Deus, comunicando-lhes tudo o que têm, são e podem ser, são constantemente por Ele sustentadas e não podem ter em si mesmas a razão de sua existência. É sobre essa premissa metafísica que São João da Cruz irá construir toda a sua síntese espiritual. O conjunto da obra joanina, porém, se apresenta não tanto como esforço especulativo por compreender os mistérios divinos quanto como guia prático para se chegar à união com Deus, corolário que acaba por decorrer, como exigência vital, dos pressupostos filosóficos subjacentes à sua doutrina. Com efeito, sendo Deus tudo e as criaturas, por assim dizer, um nada, a percepção de que dependemos inteiramente de nosso Pai celeste, do Qual recebemos tudo quanto somos, dará à mística do nosso Santo as feições que a caracterizam e a tornam reconhecível: o auto-esvaziamento, o desprendimento total e, por fim, a conformidade da vontade humana à divina.

 

Fonte: Padre Paulo Ricardo

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