OITAVO DIA DO NOVENÁRIO DE NOSSA SENHORA DO CARMO: REMIR OS CATIVOS E SUPORTAR COM PACIÊNCIA AS FRAQUEZAS DO PRÓXIMO

julho 15 10:43 2016 Imprimir Este artigo

” E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito: O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração, a pregar liberdade aos cativos, e restauração da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano da graça do SENHOR.” (Lc 4,17-19).

Nossa Senhora do carmo 1

Imagem: Riso Alencar

Caríssimo Padre Rui, que em sua pessoa saúdo os demais irmãos no presbitério, diácono, seminaristas, povo devoto e romeiros de Nossa Senhora do Carmo, graça e paz em Jesus nosso senhor.

Esta obra parece ser uma extensão da que pede que visitemos os encarcerados. Num sentido mais espiritual, pede-nos que libertemos os cativos, os presos. Mas de que prisão?

Vejamos que no Antigo testamento Deus libertou seu povo cativo no Egito. No tempo da plenitude, enviou-nos seu Filho para libertar a humanidade cativa do pecado, do erro, da desobediência, do mal que assolava a vida dos seus filhos. Por isso é comum encontrarmos tantas passagens evangélicas em que Jesus liberta os sofredores, liberta os cativos: os leprosos, os cegos, os paralíticos, a mulher com hemorragia e com sua morte nos libertou do poder das trevas.

Contagiados com estes exemplos qual deve ser nossa atitude frente as inúmeras cadeias, prisões que afligem a vida de nossos irmãos hoje? A nossa atitude deve ser a mesma de Jesus, libertar para a vida plena e em abundância. Devemos ser sinal de libertação, de resgate para nosso irmão que se encontra cativo nos vícios, no erro e na ignorância da fé e da vida.

Quais as prisões de Hoje então? Tratamos recentemente na Cf de 2014. Ei-las: exploração e consequência de violações de direitos de pessoas, ou seja “tráfico de seres humanos” . No Brasil, são práticas bem conhecidas do tráfico humano: a exploração de mulheres, crianças e adolescentes, no mercado do sexo, e a exploração de trabalhadores escravizados em atividades produtivas. Não obstante, podemos citar como modalidades do tráfico humano as seguintes práticas:

– Tráfico para a exploração no trabalho: qualquer trabalho que não reúna as mínimas condições necessárias para garantir os direitos do trabalhador (dignidade, liberdade, meio favorável, remuneração, entre outros).

– Tráfico para a exploração sexual: tal prática se utiliza da pornografia, do turismo, da indústria do entretenimento e da internet.

– Tráfico para a extração de órgãos: envolve a coleta e a venda de órgãos de doadores involuntários ou doadores que são explorados ao venderem seus órgãos.

– Tráfico de crianças e adolescentes: geralmente com a finalidade de exploração sexual.

– O preconceito ao negro e aos povos indígenas.

A história do povo de Israel é permeada de diversas formas de agressão à dignidade da pessoa e à liberdade. Mas este povo também se fortalecia recordando eventos salvíficos. A Boa Nova implica a libertação de qualquer tipo de exploração e injustiça contra os pobres. A revelação, em Cristo, do mistério de Deus é também a revelação da vocação da pessoa humana à liberdade. Anunciar a boa notícia da libertação aos explorados não pode ser só de palavras. Os pobres são aqueles para quem a vida é uma carga pesada em seus níveis primários de sobreviver com um mínimo de dignidade. O Reino de Deus anunciado aos pobres requer o atendimento das exigências de um viver digno e empenho no enfrentamento de atividades que atentam contra a dignidade da pessoa.

Cristo é a Verdade que liberta; é a Liberdade oferecida a todos indiscriminadamente.

A liberdade cristã visa, em primeiro lugar, o amor ao próximo. Dessa forma, Cristo ao inaugurar a lei da liberdade (cf. Gl 4,7), ele inaugura também a lei do Amor.

Suportar as fraquezas do nosso próximo

Ora, a capacidade de suportar tem por fundamento o Evangelho e o exemplo de Jesus Cristo, e torna-se possível pela fé. A este propósito, importa perceber que isto não tem nada a ver com o suportar passivamente o sofrimento. A atitude — livre e amorosa — de suportar quem é incómodo, antipático, aborrecido, lento, carenciado, equipara-se ao amor ao inimigo.

E requer que trabalhemos sobre nós mesmos para aprendermos a conhecer e a amar o inimigo que existe em nós, aquilo que em nós é incómodo, aquilo que nos é insuportável e que Deus, em Jesus Cristo, suportou pacientemente, amando-nos de modo incondicional.

Não é por acaso que o Novo Testamento exorta com frequência a ter paciência e a suportar os outros no contexto de difíceis relações comunitárias: “Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente se alguém tiver razão de queixa contra outro” (Cl 3, 13). O suportar-se mutuamente é manifestação de caridade. “Exorto-vos a que procedais de um modo digno do chamamento que recebestes; com toda a humildade e mansidão, com paciência: suportando-vos uns aos outros no amor.” (Ef 4, 1-2).

O hebreu bíblico fala de Deus como “lento para a ira”, para indicar a sua paciência. Paciência que é, portanto, intenção de amor para com o ser humano. A paciência, com efeito, não quer tornar-se cúmplice do mal cometido. A paciência é o olhar generoso de Deus fixo no ser humano, olhar que não se detém nos detalhes, no acidente de percurso, que não considera o pecado definitivo, mas que o coloca no contexto de todo o caminho existencial que o ser humano é chamado a percorrer.

A paciência de Deus não é impassibilidade nem passividade, mas a longa respiração da sua paixão, paixão de amor que aceita sofrer esperando os tempos do ser humano e a sua conversão: “Não é que o Senhor tarde em cumprir a sua promessa, como alguns pensam, mas simplesmente usa de paciência para convosco, pois não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam” (2Pd 3, 9).

Em Jesus Cristo e, de modo particular, na sua paixão e morte, a paciência de Deus alcança o seu ápice enquanto assunção radical da incapacidade e debilidade do ser humano, do seu pecado. Em Cristo, Deus aceita “carregar o fardo”, “suportar” a insuficiência e incapacidade humanas, assumindo a responsabilidade pelo homem na sua falibilidade. A “paciência de Cristo” (2Tes 3, 5) exprime assim o amor de Deus, do qual é sacramento: “O amor é paciente”; “o amor tudo suporta” (1 Cor 13, 4.7). Á imitação da paciência de Jesus, longe de ser implacável com os pecadores, era tolerante.

Não há quem não tenha muitos defeitos. Só por essa razão já deveríamos ser compreensivos para as limitações de nosso próximo, mas além disso, Jesus nos deixou um ensinamento explícito para que fôssemos compassivos e humildes no trato com os que nos cercam. Antes de atirar a primeira pedra, devemos ser críticos com nós mesmos. Os erros de nossos irmãos não deve ser motivo de escárnio e condenação, mas um quadro que espelha nossas próprias fraquezas.

Que Deus nos ajude na busca de libertação aos nossos irmãos sofredores e nos conceda a graça de suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo, assim como Deus suporta as minhas.

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