Oração vocal – O primeiro passo para começar a rezar

julho 03 16:44 2016 Imprimir Este artigo

 

I. A oração é um encontro

Após termos considerado a importância e a necessidade da prece cristã, devemo-nos ocupar agora da prática concreta da oração. Por isso, é preciso saber, em primeiro lugar, de que maneira convém começar a orar. Antes de mais, porém, deve-se ter presente que a oração, se feita de modo autêntico, não é senão um encontro, o que supõe, naturalmente, pelo menos duas presenças: a de quem ora e a de Deus. É isto o que o Senhor nos revela, pouco depois de haver ensinado o Pai-nosso, ao dizer às multidões que O ouviam ao pé da montanha: “Tu, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido” (Mt 6, 6). Este “orare Patrem in abscondito” consiste, portanto, em falar a Deus no segredo e na intimidade do nosso coração. Mesmo quando feita em comunidade — em família ou na igreja —, a verdadeira prece do cristão deve ter sempre essa nota de “solidão com Deus”, ou seja, de encontro íntimo e pessoal com Aquele “a quem falamos ao rezarmos e a quem ouvimos ao lermos os divinos oráculos” [1]. Esta advertência para a presença de Deus é tão essencial à nossa oração que os Padres espirituais da Igreja chegavam a insistir na necessidade de nos lembrarmos dEle com mais frequência do que respiramos (cf. CIC 2697) [2].

II. entre a nossa miséria e a Misericórdia

Disto decorre que, antes mesmo de começarmos a rezar, precisamos encontrar-nos com a nossa miséria para só então, cientes de nossa indignidade, nos encontrarmos com a misericórdia de Deus. Santa Teresa d’Ávila refere-se à conveniência deste recolhimento interior ao escrever às suas monjas que “a primeira coisa a fazer” antes de iniciarmos nossa oração “é o exame de consciência” [3], quer dizer, a consideração sincera de como nos achamos física, afetiva e, sobretudo, espiritualmente — nossos pecados, imperfeições, infidelidades etc. —, pois se fugirmos à verdade sobre nós não poderemos pôr-nos diante dAquele que é a própria Verdade (cf. Jo 14, 6). Assim, quando nos houvermos recolhido o suficiente, temos de procurar ter conosco a companhia do Mestre que quer ensinar-nos a falar-lhe com franqueza e confiança; neste momento, convém fazer algum ato preparatório, presente nas diversas coletâneas de orações que por aí circulam [4], a fim de avivarmos nossa fé na presença viva do Senhor. “Representai”, conclui Santa Teresa, “que tendes o próprio Senhor junto de vós e vede com que amor e humildade Ele vos ensina; e, acreditai-me, enquanto puderdes, não fiqueis sem tão bom amigo” [5].

III. O recolhimento já é oração

Este recolhimento de que falamos acima já pode, com propriedade, ser chamado oração. Sem ele, por muito que mexamos os lábios, não poderemos orar verdadeiramente: será, no máximo, ruído, um chacoalhar de latas, coisa a que de forma nenhuma poderíamos chamar oração [6]. Isto porque é apenas por meio do recolhimento que o homem se coloca em situação de relacionar-se de forma genuinamente humana com os demais e, acima de tudo, com Deus. Pois o recolhimento “confia à oração uma alma unificada”, reunida em si mesma e desperta para o Tudivino. “É, em suma, o estado em que é possível dizer, na expressão das Sagradas Escrituras: Eis-me aqui!” (cf. 1Sm 3, 4-8) [7]. Por isso, o homem que ora de modo recolhido pode dizer: “Deus está aqui, e eu também estou” [8]. É a partir desse encontro, feito no silêncio e no escondido — in abscondito — que passaremos a ter vida de oração, porque o recolhimento, como dissemos, já é, em si, uma forma de orar, mesmo que ainda não nos tenhamos dirigido Àquele em cuja presença nos encontramos.

Referências

  1. Ambrósio de Milão, De officiis ministrorum, I, c. 20, 88 (PL 16, 50). V. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática “Dei Verbum“, de 18 nov. 1965, n. 25 (AAS 58 [1966] 829).
  2. Cf. Gregório de Nazianzo, Oratio XXVII, 4: “Nec enim tam sæpe spiritum ducere quam Dei meminisse debemus” (PG 36, 16B).
  3. Teresa d’Ávila, Caminho de Perfeição, c. 26, n. 1. In: “Obras Completas”. Trad. port. de Adail U. Sobral et al. 4.ª ed., São Paulo: Edições Carmelitanas; Loyola, 2009, p. 375. (A paginação das obras de St.ª Teresa será sempre a desta edição.)
  4. V. Orações do Cristão. 8.ª ed., São Paulo: Quadrante, 2001, p. 18s: “Meu Senhor e meu Deus, creio firmemente que estás aqui, que me vês, que me ouves. Adoro-Te com profunda reverência. Peço-Te perdão dos meus pecados e graça para fazer com fruto este tempo de oração. Minha Mãe Imaculada, São José, meu Pai e Senhor, meu Anjo da guarda, intercedei por mim”.
  5. Teresa d’Ávila, op. cit., loc. cit.
  6. Cf. Josemaria Escrivá, Caminho. Trad. port. de Alípio M. de Castro. 9.ª ed., São Paulo: Quadrante, n. 85, p. 50.
  7. Romano Guardini, Introdução à Oração. Trad. port. de G. Hamrol. Lisboa: Aster, 1961, p. 27.
  8. Id., p. 33.

 

Fonte: PadrePauloRicardo.org

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