SEXTO DIA DO NOVENÁRIO DE NOSSA SENHORA DO CARMO: DAR POUSADA AOS PEREGRINOS E CONSOLAR OS AFLITOS

julho 13 10:55 2016 Imprimir Este artigo

Filhos e filhas em Cristo, viver a misericórdia é nos deixarmos sermos movidos pelo Espírito do Ressuscitado que nos convida e envia em missão. Pelos caminhos desta missão muitos serão os irmãos que encontraremos. Alguns famintos, sedentos, nús e peregrinos e consolaremos os aflitos e tristes. Eis as duas obras de nossa reflexão de hoje: Acolher os peregrinos e consolar os tristes.

EscapulárioUm fato da história da origem dos Carmelitas. Nascemos no tempo das cruzadas, homens que recorriam aos lugares santos para viver como os Santos. Os primeiros Carmelitas que se estabeleceram no Monte Carmelo em suas grutas, para viverem como o Profeta Elias, eram peregrinos, homens sem moradas, mas foram neste Monte acolhidos pelo Profeta e pela Virgem do Carmo, sob a proteção do profeta e da Virgem encontraram morada, abrigo. Por isso em algumas imagens, ou pinturas da Mãe do Carmelo, encontramo-la com seu manto aberto e, sob este manto inúmeros Carmelitas que encontraram guarida em seu manto maternal.

A nossa realidade cultural recomenda que tenhamos sempre mais cuidado com as pessoas. Elas podem ser assaltantes ou elementos perigosos. Diante disso sempre mais nos fechamos e nos protegemos. Protegemo-nos com câmaras, com cachorros e com normas proibitivas. Com isso, dividimos o mundo e a comunidade, ou seja, os nossos amigos e os bonzinhos de um lado e os perigosos são excluídos.

Em Mateus que fundamenta as obras de misericórdia corporais diz: “eu era estrangeiro e peregrino e recolhestes-me”. Estas palavras marcam toda a história do povo de Deus, povo de Israel. O hospede que passa e pede o teto que lhe falta lembra a Israel a sua condição passada de forasteiro e estrangeiro e sem morada. Levítico diz: “O peregrino será para vós um concidadão: amá-lo-ás como a ti mesmo.” O peregrino tem necessidade de ser acolhido e tratado com amor, em nome do Deus que o ama. O peregrino deverá ser defendido perante grandes dificuldades e não devemos hesitar em incomodar os amigos se faltarem os meios para ajudar um forasteiro que aparece sem esperarmos.

Quem é o peregrino a quem Jesus convida a dar acolhimento? O peregrino é o romeiro, aquele que vai em peregrinação a um local sagrado ou para participar de um evento eclesial, a este peregrino, que muitas vezes necessita de hospedagem o Senhor espera que recebamos em nossa casa e que partilhemos de nossos alimentos. Recomenda a cartas aos Hebreus: “Não vos esqueçais da hospitalidade, pela qual alguns, sem o saberem, hospedaram anjos.”(Hb 13,2). A hospitalidade nos liberta do egoísmo. Abrir as portas de nossa casa atrai amizade, partilha, liberalidade, benignidade e enriquece nossos relacionamentos. Façam isto com os devotos de Nossa Senhora que estão vindo para o dia da Festa. Pratiquem a hospitalidade neste dia.

Também se entende por peregrino aquela pessoa andante, que viaja que empreende longas jornadas, entre ele os estrangeiros, os deslocados e os refugiados. A Palavra de Deus ensina que um visitante sempre traz uma boa nova que passará despercebida se acostumarmos a cuidar somente de nossa própria vida, reclusos em nossos próprios problemas, sem prestar atenção no que acontece em torno. Temos o exemplo de Abraão, que justamente em meio a muitas tribulações foi visitado por Deus através de três homens desconhecidos, paradigma de toda a hospitalidade.

Abraão levantou os olhos e viu três homens de pé diante dele. Levantou-se no mesmo instante da entrada de sua tenda, veio-lhes ao encontro e prostrou-se por terra. Meus senhores, disse ele, se encontrei graça diante de vossos olhos, não passeis avante sem vos deterdes em casa de vosso servo.” (Gn 18,2-3).

É para isso que passastes perto de vosso servo…” (Gn 18, 5), Abraão reconheceu a presença de Deus naqueles peregrinos… – Passastes aqui – pensou Abraão – para que eu os ajudasse e pudesse ser abençoado por Deus. Quantas vezes, o Senhor nos envia pessoas precisando de nossa ajuda, para através delas nos abençoar, curar, libertar do egoísmo, nos salvar.

A passagem dos discípulos de Emaús narra que dois discípulos de Jesus estavam se retirando de Jerusalém, foi então que o próprio Jesus aproximou-se e caminhou com eles. Diz a Palavra de Deus: “Seus olhos estava como que vedados e não o reconheceram…” (Lc 24,16). Sabemos quem é Jesus, o que nem sempre sabemos é de que forma ele se manifestará para nós. Em dado momento os discípulos disseram: “Fica conosco, já é tarde, e já declina o dia…” (Lc 24,29); o Senhor ficou com eles e manifestou-se, o Senhor sempre se manifesta quando é bem acolhido.

“Então se lhes abriram os olhos e lhe reconheceram… mas ele desapareceu” (Lc 24,31). O Senhor desapareceu e se esconde em muitos que cruzam conosco todos os dias. Não deixe o Senhor passar sem estender sua mão para ele.

Os dois discípulos, apesar das suas decepções, estavam abertos para acolher na sua casa e companhia a um desconhecido. Não lhe perguntaram se era judeu, se era católico, se tinha algum vício ou se era ladrão. Simplesmente abriram o seu coração, a sua comunidade, o seu lar e o acolheram. Estavam dispostos a partilhar a sua vida, o seu tempo, a sua casa e o seu pão com o desconhecido. Todos esses gestos de acolhimento do forasteiro são manifestações concreta de que o vosso amor seja sem hiprocrisia… praticai a hospitalidade.

A este peregrino algumas vezes teremos que consolar. A obra espiritual de hoje é consolar os tristes. Quantas vezes fomos consolados? Por quem fomos consolados?

Deus é o primeiro consolador. Ele nos consola em todos os nossos prantos. Ele sempre consolou seu povo e com a bondade de um pastor, o afeto de um pai e a ternura d uma mãe. São Paulo atesta: “Deus… Pai das misericórdia e Deus de toda consolação”. Alguém pode esquecer de te consolar, mas, deus nunca. É próprio de Deus nos consolar, acolher na dor e no sofrimento. São Paulo ainda diz que “Cristo é a fonte de toda a consolação”. Vejam quantos foram consolados por Cristo nos evangelhos: A viúva de Naim; Jairo; a mulher pecadora; o ladrão arrependido. Irmãos, creiam que ainda hoje ele continua a nos consolar. SE a igreja faz as vezes de Cristo na terra, ela deve exercer a função de consoladora que é essencial uma vez que ela testemunha que Deus consola permanentemente os pobres e aflitos. Jesus proclama: “felizes os aflitos, porque serão consolados”. É a Igreja que hoje os consola.

A consolação é uma prática que o ser humano enquanto tal conhece, deseja, pede, concretiza, frente às situações de morte, de sofrimento físico e moral, de velhice, de solidão e abandono; ou melhor, frente a pessoas enlutadas, em sofrimento, entregues à sua velhice, isolamento e abandono. A arte de consolar consiste numa presença compassiva, na capacidade de proferir palavras sentidas como expressão de encorajamento e de proximidade, através de visitas de condolências e de bilhetes ou mensagens em tom consolador. O verbo grego que indica o ato de consolar (“parakalein”), significa, a um primeiro nível, “chamar para junto de si”, “mandar chamar”, significa em seguida “exortar”, “suplicar” e também “consolar”. A consolação não é uma intervenção anestésica. Trata-se de entrar, de certo modo, na situação do outro, ou melhor, de estar ao lado do outro

Mediante a consolação tenta-se criar uma proximidade, fazer “presença junto de” quem está na desolação e no isolamento. É certo que, por vezes, a consolação pode ser transmitida por palavras. Na primeira carta aos cristãos de Tessalónica, Paulo anuncia a esperança cristã frente à morte para consolar uma comunidade aflita com a morte de alguns dos seus membros, e conclui: «Consolai-vos mutuamente com estas palavras» (4, 18).

Uma verdadeira consolação consiste numa presença capaz de escuta. Uma presença que não avilta a desgraça do aflito com palavras falsamente tranquilizantes e ilusoriamente espirituais, com discursos teológicos, que, inevitavelmente, não alcançam a tragédia que a pessoa está a viver, antes, dela se distanciam. Muitas vezes, apressar discursos é sinal de angústia e de medo frente à aflição do aflito. Mais difícil, mas mais capaz de alcançar o outro na sua dor, é escutar o seu sofrimento, deixar que seja o seu silêncio, o seu estado de espírito, a sugerir gestos, tempos, movimentos, silêncios, palavras, olhares, abraços, carícias, distâncias, para lhes poderem servir realmente de consolação.

É significativo que a imagem talvez mais comovente, a consolação que recebemos, seja a de Deus que enxuga as lágrimas dos olhos das criaturas. Deus console nosso pranto e dor e nos favoreça esta graça de consolar os aflitos.

Homilia do Frei José Leandro de Alencar, pregador do Novenário em honra a Nossa Senhora do Carmo.

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